Transcrição de áudio

Entrevista de Estela Sandrini para a Exposição Belos Caminhos em 2021 – Turma de Museologia – EMBAP/UNESPAR.

A rotina da escola de belas artes, era a mais gratificante, mais alegre, mais esperada por todos os alunos. A escola era…, era muito…, eu posso dizer divertida. Por que? Porque a gente na escola conversava sobre cinema, sobre livros, sobre acontecimentos atuais... pintando e desenhando. E conversamos muito com os professores. Por exemplo, o Professor [Guido] Viaro, contava a história dele e contava a experiência dele como italiano, que morou em Paris, e essa rotina era sempre agradabilíssima. Você imagine você..., eu quando fui fazer a pesquisa do Professor Guido Viaro, eu tinha toda a história dele, contada por ele. E ele ensinando fazer os desenhos e discutia e brigava, conosco né. Era um movimento só! 

A escola nunca foi uma escola silenciosa, principalmente porque existia o… a escola de Música junto né, que a gente ficava escutando aqueles pianinhos e os cantos. Então… e era de madeira, para você ter uma ideia, era toda de madeira. Então mas imagine ter uma aula: o professor Viaro que pintava junto conosco, colocava os quadros dele, que ele tava pintando, ao lado e discutíamos. 

Eu lembro que do [Miguel] Bakun, o quadro que ele fez do Bakun, que ele… ele falou sobre o amarelo do Bakun, que ele fez né, um quadro lindíssimo, que pra mim é um dos melhores quadros do professor Viaro. E nós estávamos na sala e aquele quadro estava ali na sala junto. Então não existia uma rotina, a rotina era: não existia rotina. Tínhamos só uma senhora que cuidava da nossa... se a gente fugia ou não fugia da escola. Que muitas vezes o cinema nos chamava mais do que a aula.

E aquele acontecimento o tempo todo sobre pintura, discutindo, e era muito... muito interessante. Você imagina que ter aula com professor [Theodoro] De Bona contando todos os quadros que ele pintou e porquê que ele pintou. Aqueles quadros grandes que estão no Palácio Iguaçu, que tão no Colégio Estadual. E ele falando dos personagens que ele colocou no quadro, e por que que ele colocou. Que ele colocava escritores. E ao mesmo tempo vendo o Bento Mossurunga na cantina, junto conosco, tomando um cafezinho. Então essa rotina era de uma beleza que... eu não posso…, eu tenho que dar risada porque era... o lugar melhor da escola era Cantina. Onde a gente aprendia mais porque a gente discutia muito.

 

Então nós tínhamos horário sim, tínhamos caderno de presença sim. E aulas teóricas eram muito poucas. Tínhamos Arquitetura Analítica. Não sei porquê. Arquitetura Analítica com o melhor professor de Arquitetura do Paraná, que era o Fernando Carneiro.

E depois veio também o Professor [Arthur] Nísio, que nos ensinou e mostrou como que desenhava os bichos os animais. Era uma rotina que.. era só alegria. Quando a gente chegava e saía da escola tudo juntos. Ou íamos ver o Juarez Machado desenhando no Canal 12, naquela época né, que hoje seria a Globo. E ou a gente ia falar sobre algum filme, alguma coisa na cantina. 

Então a escola era uma convivência. Eu posso dizer... onde eu aprendi a conviver com as pessoas, a ver os artistas de mais idade junto conosco. Na simplicidade que eles eram, muito... todos muito simples. Nenhum deles eram pedantes, nem se consideravam melhor.  Era a simplicidade no fazer, a simplicidade relacionamento. 

O Professor Erbo Stenzel nos ensinava anatomia, e nós tínhamos que desenhar todos os ossos de um esqueleto que tinha na sala, e tínhamos que desenhar muito bem desenhado. Isso nos ajudou muito na parte da construção do modelo nu.

E o professor De Bona, sempre nas aulas do modelo nu, e sempre com… vontade de ensinar. E nós ficávamos na sala escutando eles conversarem. E eles levavam livros… levavam porque não existia o número de livros que nem hoje. A informação era muito muito precária. Eu lembro que eu tinha em casa um do Degas e do Rodin e alguma coisa, e mais nada! Eu tinha que ir à Biblioteca Pública buscar informação nos livros.

Outro fato que marcou muito a escola nessa época: eu fui diretora do diretório acadêmico. Foi quando em 1964, nós tivemos de fechar o nosso diretório e sumir. Faleceu meu pai e eu fiquei em casa naquele ano. E voltei só em 1965 para a escola de Belas Artes. E daí já tava tudo mudado. 

Mas o interessante é que nós saíamos na rua para bater panela, e pra ser contra o Golpe [de 64]. E era muito atuante. Tem colegas nossos que sofreram muito. A Escola de Belas Artes tinha uma participação política nas coisas. E nossa formação era essa, e nossos professores, nenhum deles freava essas manifestações, pelo contrário, eles diziam que um artista tem que participar. Que o artista tem sua voz e tem seu tempo. E tem o seu recado!